Í  N  D  I  C  E

O CULTO ÀS RELÍQUIAS
É CERTO OU ERRADO? || ESPERAR O QUÊ? || A PRAGA E O PAPA || A BÍBLIA E A MISSÃO DO PAPA
PEDIR, MAS TAMBÉM AGRADECER
|| O MAIOR PAÍS CATÓLICO DO MUNDO? || AS INDULGÊNCIAS
O CÓDIGO DA VINCI
|| O CÓDIGO DA VINCI E O JUDAÍSMO || UM EVANGELHO DE JUDAS?
DEUS E O MAL
|| PARA CRIAR ESPÍRITO CRISTÃO NA FAMÍLIA - I || OUTROS ARTIGOS
 

 
   
 

O CULTO ÀS RELÍQUIAS 

A veneração de relíquias alcançou um apogeu na Idade Média, mas aparece desde os inícios do Cristianismo. Não se pode negar, de um lado, a legitimidade teológica e, de outro, um risco de supervalorização ou até mesmo de pensamento mágico. Atualmente, pergunta-se: o que são as relíquias, qual a legitimidade de um culto às mesmas e se existe uma regulamentação. Convém analisar detidamente a fundamentação histórica, a legitimidade teológica e a respectiva cautela necessária requerida dos pastores.

1. Coordenadas históricas

A palavra relíquia etimologicamente significa restos (l. reliquiae), com referência ao corpo humano ou parte do mesmo. Num sentido mais amplo, são chamadas relíquias também os objetos que tiveram um contato com uma pessoa que se venerava, como as suas vestes, os objetos que usou e, mais especialmente, os instrumentos de seu martírio ou de sua penitência. As relíquias são veneradas pelo povo cristão não em si mesmas, mas em razão das pessoas com as quais estão em relação.

Os ritos fúnebres são um fato universal, pois desde a pré-história o homem faz questão de honrar os seus mortos e de ficar em contato com eles. Contudo, já o Antigo Testamento impunha limites a costumes ligados aos povos e a crenças supersticiosas[1].

Desde suas origens, a Igreja venerou as relíquias, primeiramente as dos mártires e logo também as dos santos confessores. Este culto começou com o martírio de Santo Inácio de Antioquia. E a Igreja de Esmirna considerou os restos de seu bispo e mártir São Policarpo mais preciosos que o ouro e começou a venerá-los celebrando solenemente todos os anos o aniversário de seu martírio.

Se a relíquia estava constituída pelo cadáver inteiro, se chamava corpus; se por parte do mesmo, se dizia ex ossibus ou ex capillis. As relíquias procedentes somente do contato com o corpo eram chamadas pelos antigos brandea, memoriae, nomina, pignora e sanctuaria. Os edifícios levantados sobre os sepulcros dos mártires se chamavam basilicae ou ecclesiae ad corpus, quer dizer, erigidas precisamente no lugar de seu sepulcro. Os primeiros cristãos gostavam de ser enterrados junto aos sepulcros dos mártires e, por isso, estas basílicas chamavam-se cemiteriais[2].

Não há diferença de origem entre os ritos do culto dos defuntos e os do culto dos mártires porque um deriva do outro. Nem tampouco entre o culto dos mártires e o dos santos não mártires porque rapidamente estes foram associados àqueles numa comum veneração. Não existe também diferença alguma de origem entre o culto dos santos, mártires ou não, e de suas relíquias, que eram sinal de sua presença e veículo de sua ação, em sentido espiritual, entre os vivos. Todos esses cultos nasceram um do outro como ramos de um mesmo tronco[3].

O culto do túmulo dos justos é uma herança bíblica. No Antigo Testamento apresenta vários relatos quanto ao respeito pelos restos dos mortos, p. ex.: a existência da tumba da família (cf. Gn 23, 1ss); Abraão chorou junto ao túmulo de Sara (cf. Gn 32, 2ss); a expressão bíblica comum “ser sepultado com seus pais” ou “adormecer com os seus pais” refere-se provavelmente ao sepultamento nas tumbas de família[4]; o túmulo dos patriarcas e de outros personagens permaneceram na memória do povo[5]; é digno de nota o fato de não se conhecer o local da sepultura de Moisés (cf. Dt 34, 6); o fato de não dar sepultura a alguém era uma maldição ou castigo (cf. Dt 28, 26; 1Rs 21, 23s; 2Rs 9, 36s; Is 34, 3; Jr 7, 32ss); tocar em um santo, na sua roupa ou nos seus ossos provoca uma ação sobrenatural (cf. 2Rs 13, 2).

No Novo Testamento encontram-se relatos importantes: sobre o costume de venerar o túmulo dos mortos (cf. Mt 3, 29); o tocar em um santo, na sua roupa ou nos seus ossos (cf. Mt 9, 20ss; Mt 14, 36); até a sombra dos santos é capaz de produzir um efeito milagroso (cf. At 5, 15); os evangelhos relatam muitos dos costumes quanto às sepulturas e os corpos sepultados (cf. Mt 27, 60; Mc 16, 1; Lc 23, 56ss; Jo 11, 38ss; 19, 39ss; 20, 7; At 9, 37).

Portanto, em sua origem, o culto das relíquias coincide com a veneração dos restos mortais dos santos. O cadáver inteiro é colocado na tumba e ali recebe as honras tradicionais, sem sofrer divisão, perda ou translado e, com maior razão, sem ser objeto de comércio. Todas essas práticas estavam expressamente proibidas pelo Codex Theodosianus. Se os restos estavam dispersos, se procurava reuni-los enquanto fosse possível e o resultado era considerado o corpo inteiro. Essa legislação e esse costume romanos não se haviam estendido por todo o Império, mas serviram ao menos para justificar, por um lado, a oposição dos ocidentais a distribuir os restos de seus santos e, por outro, a implantar o costume das relíquias representativas obtidas pelo contado ou aproximação (brandea). No oriente, pelo contrário, se procedia com menos rigor nestas questões. Transladações e divisões de relíquias foram de comum administração a partir das de São Babila em Antioquia[6] e o costume se estendeu a Constantinopla e a todo o oriente. Na segunda metade do século IV começaram a chegar relíquias orientais ao norte da Itália e esse fato talvez explique a moda de transladações, cujo principal agente foi Santo Ambrósio[7].

Mas, sem lugar a dúvida, foi a descoberta das relíquias de Santo Estêvão que no ocidente provocou a mudança mais profunda e duradoura em razão de sua difusão universal. Tem-se um exemplo eloqüente na atitude de Santo Agostinho, cuja indiferença inicial pelo culto das relíquias cedeu, nos últimos anos de sua vida, a um proselitismo ativo e indicativo. O bispo de Hipona expressa o conceito e a razão teológica do culto das relíquias: é a Deus que se levantam altares, o que se oferece é a Deus que coroa os mártires[8]. O último estágio dessa evolução está representado no ocidente por Gregório de Tours e no oriente por João Damasceno. A obra hagiográfica do primeiro está inteiramente orientada ao culto das relíquias e se apresenta como um catálogo dos milagres que estas realizam. João Damasceno (De fide orhodoxa 4, 15) codifica a teologia grega sobre o culto das relíquias e prepara a que formulará Santo Tomás de Aquino sobre o tema: os corpos dos santos, íntegros ou em partes, enquanto templos terrenos de Deus, merecem veneração que convém às pessoas revestidas de qualquer dignidade; e por ser esta dignidade reflexo da glória de Deus, o culto que se lhe rende redunda em definitivo a Deus[9].

>No campo eclesiástico, o Concílio de Trento, na 35ª Sessão, ao tratar explicitamente das relíquias, afirma que: devem ser venerados pelos fiéis os sagrados corpos dos santos e mártires e de outros que vivem com Cristo, pois foram membros vivos de Cristo e templos do Espírito Santo, que por ele hão de ser ressuscitados e glorificados para a vida eterna, e pelos quais faz Deus muitos benefícios aos homens; de sorte que os que afirmam que as relíquias dos santos não se lhes deve veneração e honra, ou que elas e outros sagrados monumentos são honrados inutilmente pelos fiéis e que em vão se reitera a memória deles com objeto de impetrar a sua ajuda, devem absolutamente ser condenados, como já antes se os condenou e agora também os condena a Igreja[10].

O culto das relíquias está intimamente vinculado ao culto dos santos. Portanto, assim como o culto dos santos exerce um grande influxo na vida espiritual, mediante o exemplo de sua vida, assim também o culto das relíquias pode influir muito no incremento da vida interior. Com efeito, as relíquias são algo concreto e visível, posto que se trata de partes físicas do corpo do santo. A veneração, o contato, o beijo da relíquia, segundo as leis psicológicas, comovem, excitam a admiração e induzem à imitação do herói cristão. Ademais, há que admitir a intervenção sobrenatural do santo cujas relíquias se veneram e cuja intervenção se pede ante Deus. As relíquias dos santos são para nós como um documento tangível de sua vida espiritual enquanto nos mostram de que modo alcançaram uma perfeição tal que lhes valeu a canonização (ou beatificação) e o culto público. Não há dúvida que tudo isso constitui um grande incentivo para a perfeição da vida espiritual. Com efeito, o culto das relíquias exerceu um grande influxo na vida interior dos próprios santos[11]. O Concílio Vaticano II reafirma a posição eclesial de que as relíquias autênticas dos santos devem ser veneradas[12].

No Código de Direito Canônico de 1917 aparecem vários cânones relativos às relíquias: 1276, quanto à importância do culto; 1255, ao tipo de culto; 1281, quanto às relíquias insignes; 1282, quanto à conservação de relíquias em oratórios privados; 1283 e 1284, quanto ao culto público e a autenticidade; 1285, quanto às relíquias antigas; 1287, quanto à maneira de expor; 1288, quanto às relíquias da Santa Cruz; 1289 quanto ao cuidado e à venda de relíquias. Portanto, eram dadas normas expressas acerca da autenticidade das relíquias. As disposições canônicas vigentes, dando por suposta sua autenticidade, apenas regulam o relativo a sua possível venda ou alienação.

A autenticidade de uma relíquia supõe um certo reconhecimento de sua genuinidade. O autêntico reconhecimento é o que se faz em forma jurídica pela competente autoridade eclesiástica que é o ordinário do lugar, onde se encontra o sepulcro, expressamente delegado pela Congregação para a Causa dos Santos. No momento do reconhecimento se tomam algumas partes do corpo que, autenticadas pelo postulador, se distribuem aos fiéis[13].

O novo código, de 1983, reserva um cânon à questão das relíquias. É o c. 1190 nos parágrafos 1 e 2, onde proíbe terminantemente vender relíquias sagradas e que, para a alienação ou transladação de relíquias insignes ou as que gozem de grande veneração do povo é necessária a aprovação da Sé Apostólica[14].

Quanto ao que sejam relíquias insignes, vale a descrição do código de 1917, no cânon 1281 § 2: o corpo, a cabeça, um braço, um antebraço, o coração, a língua, uma mão, uma perna ou aquela parte do corpo na qual o mártir padeceu contanto que esteja íntegra e não seja pequena[15].

O culto das relíquias se chama relativo, enquanto se honra a relíquia pela relação que teve com a pessoa do beato ou santo. Esse culto é perfeitamente legítimo porque não é supersticioso nem subtrai nada ao verdadeiro culto divino. Dito culto se encontra também no campo civil, dirigido a recordações e restos de homens ilustres e heróis, e, mais recentemente, também a astros do cinema e da música. É um culto antiquíssimo e estendido por todo o mundo; é legítimo em seu princípio e constitui parte importante das leis comuns da humanidade.

A Igreja não só recomenda a veneração das relíquias, mas se preocupa também em desterrar os abusos e irreverências. Exige que as relíquias sejam autenticadas, mediante documento escrito e oficial, expedido pela autoridade competente, para que possam ser expostas ao culto público dos fiéis. A exposição pública, a fabricação ou a venda de uma relíquia falsa era punida com a excomunhão ipso facto, reservada ao Ordinário[16].


[1] Cf. X. LÉON-DUFOUR, Vocabulário de Teologia Bíblica, 5ed., Petrópolis: Vozes, 1992, p. 617s.

[2] Cf. E. ANCILLI, Diccionario de Espiritualidad, 2ed., Barcelona: Herder, 1987, v. III, p. 278.

[3] Cf. INSTITUTUM PATRISTICUM AUGUSTINIANUM, Diccionario Patristico y de la Antigüedad Cristiana, Salamanca: Sígueme, 1992, v. II, p. 1377.

[4] Cf. J. MACKENZIE, Dicionário Bíblico, 2ed., São Paulo: Paulinas, 1984, p. 865.

[5] Cf, Idem.

[6] Mártir durante a perseguição do imperador Décio, em 251, Babila foi sepultado primeiramente no cemitério cristão de Antioquia, mas em 351 o césar Galo mandou transportar seu corpo a uma igreja construída em honra do mártir, no subúrbio de Daphnè, para suprimir naquele lugar o culto a Apolo. Juliano Apóstata (362) mandou transportar de novo as relíquias de Babila; por isso, pouco depois, o bispo Melicio (+381) lhe mandou construir uma nova basílica. Cf. INSTITUTUM PATRISTICUM AUGUSTINIANUM, Diccionario Patristico y de la Antigüedad Cristiana, op. cit., v. I, p. 286.

[7] Cf. INSTITUTUM PATRISTICUM AUGUSTINIANUM, Diccionario Patristico y de la Antigüedad Cristiana, op. cit., v. II, p. 1379.

[8] Cf. PL 42, 384.

[9] Cf. Cf. INSTITUTUM PATRISTICUM AUGUSTINIANUM, Diccionario Patristico y de la Antigüedad Cristiana, op. cit., p. 1379.

[10] Cf. DS 1822.

[11] Cf. E. ANCILLI, Diccionario de Espiritualidad, op. cit., p. 279.

[12] Cf. SC 111.

[13] Cf. E. ANCILLI, Diccionario de Espiritualidad, op. cit., p. 278.

[14] Cf. CIC, cân. 1190

[15] Cf. T. RINCÓN-PÉREZ, La Liturgia y los Sacramentos em el Derecho de la Iglesia, Pamplona: EUNSA, 1998, p. 342.

[16] Cf. Cf. CIC 17, cân. 2325.

 

 
   
   
     

 

 

 


É CERTO OU ERRADO?
 

“É certo ou errado?” Com essa questão, não me refiro aos tradicionais exames das disciplinas do ensino comum, mas a algo decisivo para uma conduta humanamente correta: o questionar-se sobre a moralidade (o certo ou errado – o bem ou o mal) de nossas ações, seja antes ou depois de realizá-las. Estamos no âmbito da consciência moral (ou ética, para alguns).

E o que é a consciência moral? É a própria razão quando julga a moralidade de um ato. A consciência é a voz interior que manifesta ao homem a  bondade  ou a malícia de uma ação, a fim de fazer o bem e evitar o mal; é o juízo da razão pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral de um ato concreto que pensa fazer, está fazendo ou fez. A consciência ressoa e avisa, e se fez algo que a consciência reprova, remorde; se fez o bem, mostra a sua aprovação e louvor.

Portanto, a consciência julga. E o que se espera de alguém que julga? Competência e honestidade. Competência no conhecimento da lei. Honestidade em aplicar a lei, não se deixando levar por interesses pessoais, deformando a sua aplicação.

Resta saber qual lei aplicar. Se a da maioria ou a da moda, essas podem ser imorais – o comum nem sem sempre é o normal ou o certo. Se a civil do país, à qual se está submetido, mas que pode ser questionada em sua moralidade e até não obrigar em consciência. Se a de Deus, supondo a Revelação Divina ou, pelo menos, a lei natural, inscrita por Deus na sua criação.

Todos precisamos formar a consciência (se não será uma consciência “incompetente” – não conhecerá a lei a aplicar). Porque a consciência nos foi dada para conhecer a norma e cumpri-la, para garantir a liberdade e para não fazer o mal. Aliás, a formação da consciência não é só necessidade, mas obrigação, pessoal e daqueles que têm a seu a cargo a formação das novas gerações (pais e educadores, p. ex.).

Especialmente para os cristãos, os meãm funssoal e daqueles que tnscie atre e, atr  sabemos pode ser imoral, jo questios para formar a consciência são: a) conhecer a doutrina cristã, daí a razão pela qual se ensinam os mistérios da fé, junto com as exigências morais que reclama a condição de criaturas de Deus, e, no caso dos cristãos, a condição de filhos adotivos e discípulos de Jesus Cristo; b) não agir precipitadamente, sem pensar com serenidade acerca da determinação que se vai tomar, para que o juízo da consciência seja reto e verdadeiro, e, além disso, seguro, quer dizer, certo, como pede uma boa consciência que transmite a lei de Deus; para isso, ajuda muito fazer cada dia um breve exame de consciência, vendo como agimos durante a jornada; c) pedir conselho, é preciso saber perguntar às pessoas que podem ajudar-nos (com competência e honestidade, já referidos).

Além do quê, o ser humano é um ser social e é responsável por sua própria conduta e influência – positiva ou negativa – no agir dos demais. Em sentido negativo, Jesus adverte da gravidade do escândalo; no sentido positivo, recorda que veio para que todos tenham “vida e a tenham em abundância”.

Normalmente, cuidando da formação da consciência, não será difícil conhecer e fazer o bem; e quando sobrevém alguma dificuldade, a atitude interior de buscar com empenho o discernimento da vontade de Deus facilitará a solução. São úteis as seguintes regras: nunca se pode fazer o mal para obter um bem; tratar os demais como queremos que nos tratem a nós; atuar sempre respeitando o próximo e sua consciência.

Quanto à lei natural, de pouco teria servido o ter gravado Deus na natureza humana a lei moral, que dirige e salvaguarda a liberdade, se ao mesmo tempo não tivesse dado uma capacidade conatural de conhecê-la; de modo que os imperativos morais realmente orientem a conduta do ser humano para com Deus, que é o autor da lei. Mas a Providência não falha e, como ensina a Constituição pastoral Gaudium et spes do Concílio Vaticano II: “No profundo de sua consciência o homem descobre uma lei que ele não deu a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz ressoa, quando necessário, nos ouvidos de seu coração, chamando-lhe sempre a amar e a fazer o bem e a evitar o mal: faz isto, evita aquilo. Porque o ser humano tem uma lei inscrita por Deus em seu coração, em cuja obediência está a dignidade humana e pela qual será julgado. A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do ser humano, no qual está a sós com Deus, cuja voz ressoa no mais íntimo dela” (n. 16).

Mas, é bom lembrar, a consciência pode “deformar-se”, não mais acusar o mal, por se ter acostumado. Quando a ação não se conforma com a razão, a razão tende a se conformar com a ação. Traduzindo para o “cristão”: se eu não vivo conforme acredito, acabo acreditando conforme vivo. Há muitos que têm culpa, mas a sua consciência já está cauterizada, não os acusa. Há que despertá-los. É ilógico simplesmente “lavar as mãos” quanto ao “bem” ou o “mal” da conduta humana, escondendo-se atrás de “leis” injustas ou imorais. Se não há um “Absoluto” (Deus), “tudo é permitido” (Dostoievski).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 


ESPERAR O QUÊ? 

O Papa Bento XVI envia sua segunda encíclica ao mundo: Spes salvi. Versa sobre a essência da esperança cristã. Ainda que destinada primordialmente aos católicos, percebe-se que também procura marcar posição frente aos “novos ateísmos”, que se proclamam inimigos declarados das religiões.

Quando se acusam as religiões dos males da humanidade, são esquecidos alguns “detalhes”: não foram as religiões que utilizaram os campos de concentração e gulags, as bombas atômicas e armas químicas, que perverteram o uso dos aviões, e que, por ganância, ameaçam a vida no planeta através da poluição. E as religiões não promoveram obras meritórias, não beneficiaram a humanidade, não promoveram princípios e valores de humanidade e bem comum? Será que as religiões só produzem fanáticos e equívocos? E será que só as religiões produzem fanáticos e equívocos?

Que vida e que esperança oferecem os ateus teóricos de plantão? Pensemos em que oferecem aos limitados, aos miseráveis, aos tristes, aos encarcerados, aos cheios de remorsos, aos que sofrem doenças incuráveis. Pensemos em que significado teria a existência de quem foi escravo, de quem foi limitado, de quem foi perseguido, de quem sofreu, de quem fracassou. A vida seria uma rua sem saída, uma existência sem sentido, uma “paixão inútil”.

De fato, a concepção atéia do mundo e da vida que aparece de novo florescente (mas requentada) é a de um determinismo natural, onde são os elementos do cosmo, as leis da matéria que, no fim das contas, governam o mundo e o homem. Não seria um Deus pessoal que governa o universo, mas as leis da matéria e da evolução (frutos do acaso inteligente; inteligente, mas acaso). Portanto, verdadeiramente, o poder inexorável dos elementos materiais seria a última instância, seríamos escravos do universo e das suas leis, então não-livres. A vida seria um simples produto das leis e da casualidade da matéria. Sem querer – ou querendo – substitui-se o dogmatismo religioso pelo dogmatismo “científico”. Como Deus não pode ser colocado na balança, examinado ao microscópio ou detectado pelos modernos meios de investigação empírica, não poderia existir.

O que diriam alguns importantes cientistas como Georges Lemaître, físico e astrônomo belga, autor da teoria do big-bang, sacerdote, ou Gregor Mendel, botânico austríaco, pai da genética, monge agostiniano, ou Nicolau Copérnico, matemático e astrônomo polonês, autor da teoria heliocêntrica, cônego de catedral? Provavelmente dissessem: ciência e fé, mas cada uma, na sua.


 

 
 

 
 

 
     
 

 
 


A PRAGA E O PAPA
 

Um procedimento saudável da vida acadêmica é o de recomendar aos alunos a leitura de textos conforme o original do autor, sempre que possível. Isso evita a imprudência de, sem mais, assumir a opinião equivocada de um terceiro. Confirma-se em várias situações o dito: quem conta um conto, põe um ponto. Às vezes, não apenas põe um ponto, mas trai o pensamento do autor.

Assim, a respeito do novo documento do Papa Bento XVI, opiniões começaram a ser emitidas que não expressam a verdade do texto, pinçando uma frase de seu contexto e, especialmente, interpretando mal uma palavra: praga. No site do Vaticano (vatican.va) se pode ler o texto oficial, disponível em diversos idiomas, inclusive em português.

O que afirmou o Papa? “Por isso, é mais que justificada a atenção pastoral que o Sínodo reservou às dolorosas situações em que se encontram não poucos fiéis que, depois de ter celebrado o sacramento do Matrimônio, se divorciaram e contraíram novas núpcias. Trata-se dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos. Os pastores, por amor da verdade, são obrigados a discernir bem as diferentes situações, para ajudar espiritualmente e de modo adequado os fiéis implicados. O Sínodo dos Bispos confirmou a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir aos sacramentos os divorciados re-casados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e realizada na Eucaristia. Todavia, os divorciados re-casados, não obstante a sua situação, continuam a pertencer à Igreja, que os acompanha, com especial solicitude, na esperança de que cultivem, quanto possível, um estilo cristão de vida, através da participação na Santa Missa, ainda que sem receber a comunhão, da escuta da palavra de Deus, da adoração eucarística, da oração, da cooperação na vida comunitária, do diálogo franco com um sacerdote ou um mestre de vida espiritual, da dedicação ao serviço da caridade, das obras de penitência, do empenho na educação dos filhos” (Sacramentum caritatis, 29).

Portanto, é óbvio que o Papa não usa o substantivo praga para pessoas, mas para o fenômeno social no qual muitos católicos estão envolvidos. E que quiseram casar na Igreja, sabendo que, para a mesma, o matrimônio é indissolúvel.

E o que é praga? Ora, cotejando quatro versões no site do Vaticano, percebe-se outra questão acadêmica. A versão típica (em latim) utiliza “plaga”, a versão em espanhol usa “plaga”, a versão em italiano “piaga”. Consultando os respectivos dicionários percebe-se que o significado pode ser doença, epidemia, chaga, desgraça, calamidade. No português há outro significado: maldição. Mas cabe lembrar que o Papa não escreveu originalmente em português.


 

 
 

 
 

 
     
 

 
 


A BÍBLIA E A MISSÂO DO PAPA

Uma leitura dos Evangelhos interessada na situação de Pedro adverte como o conjunto dos fatos prepara e subentende a instituição do primado pontifício (a missão do Papa na Igreja, seu poder sobre os demais fiéis). São aspectos significativos: Pedro encabeça sempre a lista dos Doze Apóstolos, detendo o primeiro lugar no seio do colégio apostólico; Pedro vem a ser o porta-voz autorizado dos Doze; junto com Tiago e João, é testemunha privilegiada da ressurreição da filha de Jairo, da transfiguração, da agonia; Jesus trata Pedro como a nenhum outro apóstolo, pregando desde a sua barca, hospedando-se em sua casa, ordenando que venha a seu encontro andando sobre as águas, pedindo que pesque um peixe que contém o pagamento do imposto de ambos. No seio do colégio apostólico aparece como protagonista: Pedro é citado 195 vezes no Evangelho de Marcos; nos outros três Evangelhos  é citado 130 vezes, enquanto que João, o mais citado depois de Pedro, o é somente 29 vezes. As passagens bíblicas de especial significado para o primado do Papa são as seguintes: Mt 16, 18s; Lc 22, 31s; Jo 21, 15-17.

1. A promessa do primado:

“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 18s ).

A distinção que Cristo faz vale só para Pedro; é dito bem-aventurado individualmente. Essas palavras são ditas a Pedro como resposta à sua profissão de fé, e esta é atribuída pelo próprio Jesus a uma revelação divina. Jesus, ao dar um nome novo a Simão lhe encomenda uma missão. No Novo Testamento não há outro lugar que explique a mudança de nome de Simão para Pedro.

“Tu és Pedro”. Pedro procede do grego petros, forma masculinizada do nome feminino petra, que quer dizer rocha, que equivale ao arameu kepha. Considere-se aqui a imagem empregada: a rocha, a mudança de nome (sempre tão significativo na Bíblia), o jogo de palavras (em arameu e em grego). A designação de Pedro não significaria preliminarmente que Pedro está a receber este nome, mas que ele é rocha ou deverá sê-lo, que o “ser rocha” será sua função e sua missão. “Rocha” é um termo que o Antigo Testamento gosta de empregar com relação ao próprio Deus, um termo técnico como “pastor e rebanho”, indicando a segurança duradoura dum fundamento que será doravante representado por um homem. As metáforas implicam numa função de guia na Igreja, a qual Pedro não partilha com os outros apóstolos.

A expressão “sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja” torna claro que Pedro é a rocha sobre a qual será edificada a Igreja. O termo ekklesia, vocábulo grego que vem traduzido do hebraico kahal, significa primariamente uma assembléia e, em sentido mais preciso, a comunidade reunida para o culto divino. A ekklesia da qual se fala, e que Jesus chama “minha”, não pode ser outra que a nova comunidade messiânica, fundada por Ele e distinta de Israel.. A esta nova comunidade, promete uma cabeça visível na pessoa de Pedro. E adiciona: as portas do Inferno não poderão contra ela; palavras que devem interpretar-se no sentido de que a Igreja fundada agora sobre Pedro será a realização vitoriosa do desígnio de salvação. Daí a amplitude dos poderes prometidos a Pedro: por ser a cabeça desta Igreja, recebe a missão de libertar aos homens do império da morte para fazê-los entrar no Reino da vida. Mais: significa a promessa de duração perene.

“Eu te darei as chaves do Reino dos Céus”. Conferir as chaves é uma clara afirmação de que se põe alguém na posição de chefia, dotado de autoridade. Dizer a Pedro que possuirá as chaves equivale a dizer-lhe que terá a responsabilidade total da casa de Deus aqui na terra.

“O que ligares na terra...” Esta terceira imagem precisa e reforça as duas imagens anteriores. A expressão “atar-desatar” era clássica na literatura rabínica. Para captar seu verdadeiro alcance, é preciso ter em conta a oposição existente entre os termos, procedimento corrente para indicar uma totalidade. Inclusive, “atar-desatar” era um conceito bem determinado para indicar a autoridade doutrinal e disciplinar dos rabinos, e pode designar não apenas a autoridade doutrinal (declarar algo como proibido) senão que também o poder disciplinar (excomungar). Ligar é emitir uma sentença que impõe uma obrigação e desligar significa sentenciar, levantando uma obrigação. Trata-se da totalidade dos poderes que serão necessários a Pedro para introduzir aos homens no Reino de Deus. Esta promessa toma muito mais força ao assegurar Cristo explicitamente que todos seus atos serão ratificados no Céu (esta expressão se repete para o conjunto dos apóstolos). Nessas palavras de Cristo está o ponto de união entre a sua autoridade divina e a da Igreja. Se tudo o que Pedro singularmente ou todos os Apóstolos colegialmente declaram lícito ou ilícito é ratificado por sentença divina, quer dizer que é Deus mesmo quem assiste ao seu servo na terra, de modo que os seus pronunciamentos solenes nunca estejam em contraste com a verdade e o bem, mas se constituam como que o prolongamento da ação de Cristo na sua Igreja.

2. A oração de Cristo por Pedro e o papel deste com respeito aos demais

“Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar com trigo; eu, porém, orei por ti a fim de que tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22, 31s).

Ao fim da última ceia, Cristo anuncia a Pedro sua negação e sua conversão, mas o faz com termos que transcendem o alcance desse fato e que manifestam por isso mesmo o papel essencial que Pedro desempenhará com respeito a seus irmãos. Não obstante a sua fraqueza humana e ao cair na tentação (negará três vezes conhecer a Jesus), Pedro terá a missão de confirmar os irmãos na Igreja.

“...eu, porém, orei por ti”. Contra a atividade de Satanás coloca-se a intercessão de Jesus e especialmente por Pedro, chefe e porta-voz dos Doze e da comunidade primitiva. “...a fim de que tua fé não desfaleça”. Tal fé há de tomar-se no sentido bíblico de uma leal adesão a Jesus mediante a entrega, a fé e a confiança. Pedro não se manterá firme na fé por forças humanas, mas por dom de Deus. Pois na fé de Pedro fundamenta-se a fé da Igreja e tal “privilégio” que lhe cabe em relação aos demais lhe é dado por causa dos outros, cabendo-lhe fortalecê-los pela palavra da fé. Pela fidelidade na fé é a rocha sobre a qual se assente o edifício constituído pelos crentes.

“...confirma os teus irmãos”. Lucas é mais preciso e vai mais longe que Mateus no papel de Pedro com respeito a seus irmãos, sublinhando melhor a missão especial de Pedro com respeito aos demais apóstolos. O texto é um dos mais fortes em sentido favorável à infalibilidade pessoal de Pedro e de seus Sucessores, infalibilidade que constitui um dos aspectos essenciais do primado.

3. A investidura do primado

“Depois de comerem, Jesus disse a Simão Pedro: ‘Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?’ Ele lhe respondeu: ‘Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo’. Jesus lhe disse: ‘Apascenta os meus cordeiros’. Uma segunda vez lhe disse: ‘Simão, filho de João, tu me amas?’ ‘Sim, Senhor’, disse ele, ‘tu sabes que te amo’. Disse-lhe Jesus: ‘Apascenta as minhas ovelhas’. Pela terceira vez disse-lhe: ‘Simão, filho de João, tu me amas?’ Entristeceu-se Pedro porque pela terceira vez lhe perguntara ‘Tu me amas?’ e lhe disse: ‘Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo’. Jesus lhe disse: ‘Apascenta as minhas ovelhas’” (Jo 21, 15-17).

“Simão, filho de João...”. A tríplice nomeação plena marca a solenidade da situação, dando assim um caráter oficial do fato, num ritual três vezes repetido: o apelo e a pergunta, a resposta de Pedro, o encargo conferido por Jesus. A pergunta se refere à ligação pessoal de Pedro com Jesus, em que o amor a Jesus aparece como pressuposto interno para o encargo imediato. Além disso, no Oriente, repetir três vezes diante de testemunhas, se usava para dar solidez e valor absoluto ao que se pronuncia.

 “... tu me amas mais do que estes?” Segundo a interpretação comum, Jesus exige de Pedro a tríplice confissão de seu amor particular como para apagar melhor o estigma de sua tríplice negação. Em troca lhe confia o cuidado de todo seu rebanho. Apesar da falha humana de Pedro, Jesus lhe outorga uma missão destacada.

“Apascenta as minhas ovelhas”. Isto quer dizer que, durante o tempo de ausência de Jesus, Pedro será o pastor das ovelhas por encargo do próprio Jesus, que no mesmo evangelho havia se declarado como o “bom pastor” e falado sobre as suas ovelhas. A figura do “pastor” tem uma ampla tradição no Antigo Testamento e no antigo Oriente. Mas deve-se observar, na comunicação do ofício de “pastor” a Pedro, Jesus sempre fala de “minhas ovelhas”. Portanto, Pedro não passa a ser “dono e senhor” das ovelhas, mas está a cargo das ovelhas de Jesus. Jesus segue sendo o único pastor do rebanho, como também a única Cabeça do Corpo, o único Salvador do mundo. Mas agora confia a Pedro o cuidado de seu próprio rebanho, concede a Pedro seu próprio ofício de pastor.

O pastor conduz as ovelhas ao pasto, o que simbolizaria a atividade de nutrir o povo cristão mediante a pregação e a catequese. O bom pastor protege as ovelhas do lobo, mesmo que dê a vida por elas, o que simbolizaria a necessária proteção contra as heresias. Portanto, a autoridade que Pedro recebe de Jesus é pastoral, deve alimentar e proteger o rebanho de Jesus. O ofício de apascentar equivale ao de governar e como o “rebanho” é a Igreja de Cristo, é conferido a Pedro o ofício de governar a Igreja, na totalidade dos poderes necessários. Não se pode passar por alto a outorga de autoridade por parte de Jesus, nem a participação de Pedro na missão de guardar o “rebanho” dos crentes, resultando claro: o Pai confiou as ovelhas a Jesus, Seu Filho, de tal modo que pertencem tanto ao Pai como ao Filho e, sem renunciar a seu direito de propriedade, o Ressuscitado, que volta para o Pai, lhas confia ao cuidado solícito de Pedro. E Cristo indica o modo de exercer o ofício de apascentar: ensinar (as ovelhas escutam a voz do pastor); guiar (o pastor faz sair as ovelhas e vai adiante delas, que o seguem); santificar (dar a vida eterna).

O texto apresenta o papel único que desempenha Pedro. Não é simplesmente mais um pastor, um primus inter pares; é realmente “o” pastor, ou seja, a cabeça responsável pela totalidade do rebanho. Assim, pois, também é a cabeça dos demais Apóstolos, como indica a exigência de Cristo na segurança do amor de Pedro: amar mais que os outros. Se na Igreja continua o ministério apostólico, tem de nela permanecer também o ministério de Pedro.

4. A transmissão dos poderes de Pedro aos seus Sucessores

Quanto à transmissão do primado de Pedro (o poder de Pedro sobre a Igreja), há considerações importantes. Primeiro, que a salvação se opera em dois tempos: a obra redentora de Cristo e o ministério da reconciliação entregue aos apóstolos, que deve durar até à volta de Cristo no chamado fim do mundo, para o qual as funções próprias deste ministério não se exaurem com a morte das pessoas físicas dos Apóstolos.

Segundo, que se necessita interpretar a missão que Cristo confia aos apóstolos à luz da categoria hebraica do shaliah (o mandatário no qual está presente aquele que manda). E o mandato não pode terminar enquanto não sejam concluídas todas as funções, o que implica num mandato até o fim dos tempos.

Terceiro que, quanto a Pedro, ele é investido da tríplice função de ter “as chaves do Reino”, de “confirmar os irmãos” e de “apascentar o rebanho” de Cristo: tais funções são necessárias na Igreja até o fim dos tempos e então devem ser transmitidas se não se quer a hipótese de uma ruptura entre a Igreja apostólica e a nossa, pela qual a Igreja de hoje seria diversa da fundada por Cristo.

Quarto, que os evangelhos e Atos, escritos depois da morte de Pedro e nos quais é dado ao apóstolo um posto fundamental, testemunham a continuidade de algumas funções petrinas. Quinto, que os textos fundamentais para a doutrina do primado se colocam no contexto da Ceia e, portanto, da Eucaristia; assim, o ministério de Pedro é destinado a acompanhar a Igreja durante toda a duração da Igreja no mundo.

Conclusão

Os textos do Novo Testamento sobre o primado de Pedro tem uma orientação implícita, que vai num sentido de uma sucessão e de um sucessor. Se a Igreja é indefectível e o seu caminho durará até o fim dos tempos, também a “rocha” sobre a qual a Igreja está fundada deve perseverar até o fim dos tempos. Se Cristo confiou a Pedro o ofício de “apascentar o seu rebanho” e este “rebanho” durará até o fim dos tempos, é necessário que também o pastor do rebanho permaneça e que então o ministério de Pedro passe dele aos seus sucessores para perpetuar-se até o fim dos tempos. Se o ofício de Pedro é aquele de “confirmar os irmãos”, e os “irmãos”, isto é, os discípulos de Cristo existirão até o fim dos tempos, também quem deve cumprir o ofício de confirmar, deve estar presente até o fim dos tempos. Numa palavra, não é concebível a Igreja sem o ministério petrino de fundamento, de guia, de unidade, de confirmação na fé, todos elementos essenciais queridos por Cristo, pelo qual, se a Igreja deve ser perene, também o ministério de Pedro, através de uma ininterrupta sucessão, deve estar na Igreja, presente e operante até o fim.


 

 
 

 
 

 
     
 

 
 


PEDIR, MAS TAMBÉM AGRADECER!
 

Ao aproximar-se um novo ano, nós temos muito que pedir. Pedidos para nós e para os outros, bens materiais e bens espirituais, pedidos para a Paróquia, para a Igreja e para o mundo.

Mas, importa dar graças a Deus. Na vida comum, sabemos bem a diferença da gratidão e da ingratidão. Lamentavelmente, é bastante freqüente que nos acostumemos, que nos habituemos com as graças de Deus, que não nos maravilhemos nem agradeçamos. No fundo, parece que acreditamos ter direitos diante de Deus. Todavia, é um dever de justiça agradecer, dar graças, reconhecer os dons do Senhor. Ao não rendermos graças a Deus, endurecemos o coração e fazemos crescer em nós o egoísmo e o orgulho.

Quem não rende graças a Deus se priva da parte melhor da graça, que não é somente um benefício (material ou espiritual), mas um gesto de amor e bondade. Receber um benefício é secundário: importante mesmo é estar em relação com o benfeitor, com aquele que dá. Para ler o amor nos olhos de Jesus é preciso retornar a Ele, dar-lhe graças, estabelecer uma relação pessoal com Ele, que doa com amor, que se doa com amor a nós. As graças (materiais e até as espirituais) são pouca coisa em comparação com o incomensurável dom que Deus faz de si mesmo. É um alimento para a alma aproveitar cada dom de Deus pra aproximar-se mais Dele. Alegrar-se duas vezes a primeira pelo dom em si; a segundo pelo seu amor e pela sua bondade.

Quando nos aproximamos do Santo Natal, lembremos de render sempre graças a Deus, pelos incontáveis dons que cada um recebeu, mas especialmente, pelo Menino-Deus, Deus que se faz presente. FELIZ NATAL E ABENÇOADO ANO NOVO.
 

 
 

 
 

 
     
 



O MAIOR PAÍS CATÓLICO DO MUNDO?

Há dados estatísticos que deveriam chamar a atenção. Nos últimos anos, o número percentual de católicos diminuiu e as seitas cresceram. E muitas vezes se diz que o Brasil é o maior país católico do mundo. O que pensar e o que fazer?

Sem querer esgotar o assunto, apresento um dado importante. Sempre que se fala do crescimento das seitas aparece o comentário: são os católicos que passam para as seitas. Deve ser feita uma correção: esses católicos que trocam de religião são quase sempre católicos nominais. Respondem ao censo que são católicos, mas não pisam quase na igreja. Afirma-se que não mais de 10% dos que se dizem católicos no Brasil são praticantes, ou seja, no mínimo vão à missa dominical com regularidade. Os outros 90% são católicos nominais. Vejam que na Polônia, 50% dos católicos são praticantes, na Irlanda, 44%. O país europeu de menor prática dos católicos é a Holanda, com 10% de católicos praticantes. O mesmo do Brasil, o pretenso maior país católico do mundo. Até a mais famosa mãe de santo do Brasil, a falecida Mãe Menininha do Gantois se dizia católica.

Cada vez mais a fé exige ser uma forte convicção pessoal. Que seja também uma herança familiar ou cultural é uma dádiva importante, mas não suficiente. Ora, para dimensionar o problema, basta pensar na quantidade de católicos que se dizem católicos-marxistas, católicos que acreditam em reencarnação, coisas que são contraditórias em si: ou se é uma coisa ou outra, são excludentes em sua teoria e em sua prática. A ignorância pode desculpar, mas quando é invencível. Diante de sua consciência, cada pessoa tem o dever de procurar a verdade. Não fazê-lo seriamente constituiria uma irresponsabilidade diante de si mesmo e de seu destino eterno.

Mas cuidado: não podemos entrar na "onda" de que não importa tanto o número de católicos, mas a qualidade. Para Jesus certamente importam as duas coisas. Ele não veio para salvar apenas algumas pessoas, mas todas, sem exceção. Nunca poderemos conformar-nos e descansar enquanto não tivermos levado a todos os seres humanos o anúncio da pessoa de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, e seu Reino. Se realmente acreditamos que Cristo é o único caminho que leva à salvação, então devemos concluir que todos os homens têm o direito de conhecê-lo. Nós, se o conhecemos mesmo, temos o dever de amor de levá-lo aos outros.

Jesus olhou para a multidão e teve compaixão. “São como ovelhas sem pastor”, ou seja, estão sem rumo, desorientados, atribulados, desiludidos, desesperançados. É uma imagem que permanece em muitos ambientes. E disso muitos cristãos são culpados, ou porque se omitem ou porque são causadores das confusões, desamores e injustiças.

Hoje, se a multidão continua desorientada é por culpa e responsabilidade de todos os cristãos, não só dos bispos e padres. É um desafio para todos nós. Já no II século depois de Cristo se afirmava: o que a alma é para o corpo, são os cristãos para o mundo. Todos recebemos a missão divina de levar os outros para Deus, à fé, à verdade, aos sacramentos. Todos os batizados são chamados a anunciar a verdade, o caminho e a vida, e denunciar o erro, o pecado e a cultura de morte. Todos deveriam ser atuantes na construção do Reino. É certo que boa parte do juízo de Deus sobre cada cristão será sobre quantas pessoas aproximou da verdade divina, sobre quantas se omitiu ou impediu que se aproximassem ou até escandalizou, levando-as para o caminho do pecado. O mundo é nossa responsabilidade, especialmente o mundo em que vivemos, no qual nos movemos e devemos dar testemunho pela palavra e pelo exemplo.

Obviamente, o resultado não dependerá somente de nosso esforço missionário e evangelizador, mas, em primeiro lugar, dependerá da graça de Deus e, enfim, da abertura de coração dos que forem alvo desta atuação. Mas, não esqueçamos o claro mandato de Cristo: Ide pelo mundo inteiro e fazei discípulos. Cada um em sua vocação e sua condição. Vale para exame de consciência de cada um de nós a frase de S. Paulo: ai de mim se não evangelizar. Ai de mim se não levar Deus aos outros e os outros para Deus.
 

 

 

 

 

 

     
 



AS INDULGÊNCIAS

O pecado desvia da vida da graça com Deus, desvia do caminho da santidade a que todos chamados. O sacramento da confissão oferece ao pecador uma nova possibilidade de se converter e reencontrar a graça obtida pelo sacrifício de Cristo.

A confissão perdoa a culpa, mas não tira algumas conseqüências do pecado, das quais é necessário purificar-se. Por seu caráter de ofensa à santidade e à justiça de Deus e também de desprezo da amizade pessoal que Deus oferece, o pecado tem conseqüências. Não é somente ofensa mas também violação de uma ordem harmoniosa estabelecida, é dano ao indivíduo e à sociedade. É necessário não somente o perdão de Deus mas requer-se que repare a ordem violada. E todo pecado, mesmo leve, traz consigo um apego desordenado às criaturas. Tudo isso tem de ser purificado, quer nesta vida, quer depois da morte, no que se chama Purgatório. É a chamada "pena temporal" do pecado.

É aí que ganha importância a indulgência, através da qual se manifesta o dom total da misericórdia de Deus, e que, através do ministério da sua Igreja, Ele espalha pelo mundo como dom precioso. As indulgências podem ser parciais ou plenárias. Estas últimas só podem ser lucradas uma vez ao dia. Podem ser aplicadas a si mesmo ou aos defuntos, mas não a outras pessoas vivas sobre a terra.

Indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, que, devidamente dispostos e em certas e determinadas condições alcançamos por meio da Igreja. Por partes:
a) remissão diante de Deus: Somente Deus vê e julga verdadeiramente nosso espírito penitencial. Cabe reafirmar o caráter exclusivamente suplicante e que o perdão depende exclusivamente da aceitação de Deus e da disposição da pessoa.
b) não é perdão da culpa (esta é perdoada pelo sacramento da confissão). A indulgência vem ajudar a satisfazer a pena devida pelos pecados e que, de um modo ou de outro, deveria ser paga nesta vida ou no Purgatório. A indulgência supõe a confissão.
c) A indulgência é concessão dada pela Igreja (é a Igreja que determina as condições objetivas para concessão)
d) devidamente disposto e em certas e determinadas condições. Para a conseguir, além do estado de graça, é necessário que o fiel: tenha a disposição interior do completo afastamento do pecado, mesmo só venial; se confesse sacramentalmente dos seus pecados; receba a Ssma Eucaristia; ore nas intenções do Papa.
 

É conveniente, mas não é necessário que a Confissão sacramental, e em especial a sagrada Comunhão e a oração pelas intenções do Papa sejam feitas no mesmo dia em que se cumpre a obra indulgenciada, mas é suficiente que estes ritos sagrados e orações se cumpram dentro de alguns dias, antes ou depois do ato indulgenciado.

Para diversas indulgências plenárias é suficiente uma Confissão, mas requerem-se uma distinta sagrada Comunhão e uma distinta prece, segundo a intenção do Papa, para cada indulgência plenária. Convém, todavia, que os fiéis recebam freqüentemente a graça da confissão, para crescerem na conversão e pureza do coração.

Tomar a sério as indulgências é tomar a sério o pecado, a graça, as conseqüências do pecado e a atitude penitencial. A doutrina sobre as indulgências ensina em primeiro lugar quão triste e amargo é ter abandonado NSr. Ao lucramos as indulgências, compreendemos que com as nossas próprias forças não seríamos capazes de reparar o mal que, pelo pecado, causamos a nós mesmos e a toda a comunidade, mas a misericórdia de Deus nos alcança através da Igreja.

 
 
 
 
 



O CÓDIGO DA VINCI

Ninguém nega a enorme repercussão do livro “O Código da Vinci”, de Dan Brown. E agora, o filme. O que dizer?

Em primeiro lugar, é uma ficção. Quem o diz é o próprio Brown, no seu site: “O Código da Vinci é uma novela e, conseqüentemente, um trabalho de ficção. Portanto, os personagens do livro e suas ações são obviamente não-reais”. Em segundo lugar, Brown apresenta uma borrifada de fatos, nomes e lugares, que podem desconcertar o menos informado. O livro se apresenta com pretensões de seriedade e de erudição. O autor enumera uma respeitável série de instituições, onde teria efetuado pesquisas, para depois afirmar erros históricos que fariam qualquer membro daquelas corar de vergonha ou de raiva. Quem buscar informações a respeito daquilo que Brown afirma, encontrará uma vasta coleção de erros crassos cometidos por ele. Vê-se que é uma obra muito malfeita, sem nenhuma pesquisa séria e sem nenhum dado consistente.

Seria impossível, neste espaço, enumerar os erros. Por isso, detenho-me num só, a primeira afirmação de Brown: “O Priorado de Sião – sociedade secreta européia fundada em 1099 – existe de fato. Em 1975, a Biblioteca Nacional de Paris descobriu pergaminhos conhecidos como os dossiês secretos...”. O Priorado de Sião realmente existiu? Sim, mas não é nada do que Brown diz ser. Foi criado somente em 1953, em pleno século XX. O pedido de oficialização do Priorado foi efetuado em 1956, na Sub-Prefeitura de Saint Julien-en-Genevois, mediante uma carta assinada pelos quatro fundadores. Um dos fundadores, Pierre Plantard (1920-2000), foi um escritor que buscou a fama através da falsificação de documentos, introduzidos em diversas bibliotecas, especialmente na Nacional de Paris, para apoiar suas fantasias. Inventou que o Priorado existia desde o século XI e que guardava a dinastia merovíngia, da qual ele fazia parte. Teria o direito de restaurar a monarquia na França, da qual ele seria representante. A imprensa francesa desmascarou as imposturas: Plantard criou os falsos “Dossiês Secretos”. Isso tudo foi mostrado também pela BBC, em 1996. O próprio Plantard confessou tudo à justiça francesa. Portanto, uma fraude já desmascarada.

Não pode ser surpresa que a crítica tenha sido implacável: “Este livro é, sem dúvida, o mais tolo, inexato, mal-informado, estereotipado, desarrumado e popularesco exemplar de pulp-fiction” (The Times); “Um insulto à inteligência” (The NY Times); “Os seus erros crassos só podem deixar de indignar um leitor que conheça pouco o assunto” (NY Daily News).

Numa passagem adverte: “Você é historiador de Harvard, e não um autor de literatura de consumo procurando um tema polêmico para faturar uma grana”. Invertida, se aplica exatamente ao livro e a seu autor: “Você é um autor de literatura de consumo procurando um tema polêmico para faturar uma grana, e não um historiador de Harvard”.

O fato é que Jesus Cristo torna a ser vendido, já não por trinta moedas, mas por centenas de milhões de dólares. “O Código da Vinci” merece protestos, não só da fé, mas da razão e do bom senso. É inegavelmente uma história oportunista, anticristã, anticatólica e antiverdade. Aos cristãos algo entusiasmados com o livro ou o filme, vale o aviso de Dante: “Cristãos, movei-vos com mais severidade: não sejais como penas ao vento, e não penseis que todas as águas vos lavem. (...) Sede homens, e não ovelhas enlouquecidas”. Ou seja, caro leitor, se você quer enriquecer um pouco mais uns inescrupulosos, ver calúnias grosseiras e gratuitas, a fé cristã ofendida e a verdade histórica vilipendiada, vá ver o filme.

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 


O CÓDIGO DA VINCI E O JUDAÍSMO 

 

Quem pensa que o Código da Vinci é apenas anticatólico, engana-se: vai contra todas as denominações cristãs ao negar a divindade de Jesus Cristo.

E não contente em tentar desqualificar o Novo Testamento, Brown vai mais longe: tenta o mesmo com o Antigo Testamento. Faz um ataque frontal à religião monoteísta mais antiga e de onde brotou o cristianismo, o judaísmo, nas suas instituições mais importantes: Deus e o Templo de Jerusalém.

No Código da Vinci lê-se: “Os alunos judeus de Langdon sempre ficavam estupefatos quando lhes contava que a tradição judaica primitiva envolvia o sexo ritualístico. Dentro do Templo, nada menos que isso. Os primeiros judeus acreditavam que o Santo dos Santos do Templo de Salomão abrigava não só Deus como também sua poderosa consorte feminina, Shekinah. Os homens que buscavam integridade espiritual vinham ao Templo visitar sacerdotisas, com as quais faziam amor e experimentavam o divino através da união física. O tetragrama judaico YHWH – o nome sagrado de Deus – na verdade derivava de Jeová, uma união física andrógina entre o masculino, Jah, e o nome feminino pré-hebraico de Eva, Havah”.

Ora, qualquer estudioso do judaísmo e do cristianismo sabe que é exatamente o contrário! É Jeová que deriva de YHWH. A palavra YHWH significa “Eu sou” e esse é o nome de Deus revelado a Moisés. A clássica forma de pronunciar essa palavra é YAHWEH. Durante muito tempo, os judeus não falavam o nome de Deus, como sinal de respeito e para evitar profanações. Em lugar de YHWH os judeus diziam Adonai, que significa Senhor. Muito depois alguns vocalizaram a palavra YHWH com as vogais de Adonai, originando assim a palavra Jeová.

Quanto ao Templo de Jerusalém: o Santo dos Santos do Templo de Salomão, onde ficava a Arca da Aliança, era um local onde só entrava o Sumo Sacerdote, uma vez ao ano, no dia da expiação, para derramar sangue de animal no propiciatório como remissão dos pecados do povo de Israel. Qualquer pessoa que ousasse entrar no Santo dos Santos, além do Sumo Sacerdote, era prontamente eliminada por Deus, segundo a crença judaica. A presença das mulheres estava restrita ao átrio externo do Templo, muito longe do próprio edifício.

Segundo o Antigo Testamento, Deus se manifestava como uma nuvem que cobria o tabernáculo. Os israelitas chamam a nuvem sobre o Santo dos Santos de Shekinah que significa “a manifestação da presença de Deus”. Sendo assim, Shekinah não é a “consorte feminina” de Deus. E querer afirmar que aconteciam reuniões sexuais no Santo dos Santos é querer transformar o lugar mais sagrado do judaísmo num prostíbulo, sem qualquer referência histórica sobre isso. Ao negar a seriedade do culto do judaísmo, nega a própria história de formação do povo de Israel em torno da sua fé e do seu Deus.

Ninguém é obrigado a crer no judaísmo ou no cristianismo, mas um mínimo de respeito merecem.

 

 

 

 

 

 

 


 
 


UM EVANGELHO DE JUDAS?

 Noticiou-se a descoberta de um texto do século IV ou V, cópia de um documento anterior, que apresenta Judas Iscariotes de maneira muito positiva. É provável que seja uma cópia do “Evangelho de Judas”, redigido pela seita gnóstica dos cainitas, citado por Santo Ireneu, em sua obra “Contra os hereges”, do ano 180 da era cristã.

Não há novidade em saber que existem muitos escritos apócrifos, logo nunca considerados no Cânon da Bíblia hebraica ou cristã. Foram redigidos por seitas judaicas ou pseudocristãs. Exemplos: Odes de Salomão, Testamento de Jó, Atos de Pedro, Evangelhos de Tomé e de Tiago, etc. Os textos apócrifos, tanto do Antigo como do Novo Testamentos, podem ser obtidos nas livrarias.

Dentre os escritos apócrifos, encontramos os evangelhos gnósticos, que não são documentos cristãos em si, já que procedem de seitas que incorporavam elementos de diferentes religiões, incluindo o cristianismo.

Desde o momento de sua aparição, a comunidade cristã rejeitou estes documentos por sua incompatibilidade com a fé cristã. O gnosticismo surgiu em meados do século II, e o “Evangelho de Judas”, se autêntico, provavelmente remonta ao final do século II.

Portanto, seria como se alguém escrevesse agora um texto sobre a Primeira Guerra Mundial e o apresentasse como uma fonte histórica primária do conflito. O “Evangelho de Judas” seria um documento desse tipo, sua descoberta teria grande valor histórico, já que contribui a nosso conhecimento do movimento gnóstico, mas não supõe nenhum desafio para o cristianismo, e nem é da época dos apóstolos.

Uma das maiores diferenças entre os gnósticos e o cristianismo refere-se às origens do mal no universo. Os cristãos crêem que um Deus bom criou um mundo bom, e que, pelo abuso da liberdade, o pecado e a corrupção entraram no mundo e produziram desordem e sofrimento. Os gnósticos atribuem a Deus o mal no mundo e afirmam que o criou desordenadamente. Por isto, são partidários da reabilitação de figuras do Antigo Testamento, como Caim, que matou seu irmão Abel, e que deu o nome à seita dos cainitas. Judas entra perfeitamente nessa visão gnóstica que mostra que Deus quer positivamente o mal do mundo.

Por fim, as palavras de Santo Ireneu, grande bispo e teólogo que morreu em 202, comentam dito evangelho e o classificam de herético: “Outros (hereges) dizem que Judas, o traidor, sabia exatamente todas estas coisas e por ser o único dos discípulos que conhecia a verdade, cumpriu o mistério da traição e que por meio dele foram destruídas todas as coisas celestes e terrestres. E apresentam, para confirmação, um escrito produzido por eles, que intitulam Evangelho de Judas”. Assim, não supõe desafio à fé cristã, nem abalará as bases do cristianismo.

 

 

 

 

 

 

 


 
 


DEUS E O MAL

Afinal, o que é o mal? Todos já o experimentamos, em nós e nos outros. Penso que ajudem duas comparações: o frio e a escuridão. O frio existe? Na verdade, o frio não existe. Segundo a Física, o que se chama frio é ausência de calor. Um termo para descrever como nos sentimos quando falta o calor. E a escuridão, existe? A escuridão tampouco existe. A escuridão é a ausência de luz. Escuridão é um termo para descrever o que acontece quando não há luz.

 E o mal, existe? Vemos crimes e violência diariamente em todas as partes do mundo, mas essas coisas não são o mal, são conseqüências do mal. Ou seja, o mal não existe, ou ao menos não existe por si só. Se o mal físico é a ausência de um bem devido, o mal moral é, simplesmente, a ausência de Deus.

Deus não criou o mal. O mal moral resulta de que a humanidade não tenha Deus presente nos corações. É como o frio, que acontece quando não há calor, ou a escuridão, que surge quando não há luz. Até os demônios, criados bons, da categoria dos anjos, desobedeceram a Deus, se perverteram e tornaram-se perversores. Os homens, inteligentes e livres, devem decidir seu destino último por escolha livre e amor de preferência. Por isso podem desviar-se. De fato pecaram, entrando o mal no mundo.

O mundo foi criado para a glória de Deus, que quis manifestar e comunicar a sua bondade, verdade e beleza. A Bíblia é clara: Deus tem cuidado de tudo, das coisas menores até os grandes acontecimentos do mundo e da história. Mas Deus serve-se da cooperação das suas criaturas, dando a dignidade de agirem por si mesmas, de serem causas umas das outras. Deus concede e requer a colaboração  dos seres humanos através das suas ações, das suas orações e mesmo com os seus sofrimentos. Podemos livremente cooperar para a nossa salvação e a dos demais.

Por que existe o mal? Não se pode dar uma resposta simples. O conjunto da fé cristã constitui a resposta, em especial o drama do pecado, o amor paciente de Deus que busca o ser humano com suas propostas, e com o chamado à vida eterna que cada um é convidado a aceitar livremente, podendo escolher o mal. Não há um traço da mensagem cristã, ou da Bíblia, que não seja parte da resposta à questão do mal.

Deus não é de nenhuma man nem indiretamente, a causa do mal moral. No entanto, o permite, respeitando a liberdade de sua criatura, e, misteriosamente, tira dele o bem maior. Por ser todo-poderoso e todo-bondade, Deus não permitiria jamais o mal se Ele não fosse suficientemente poderoso e bom para fazer surgir um bem do próprio mal.

Do maior mal cometido na história, a rejeição e a morte do Filho de Deus, causado pelos pecados de todos os homens, Deus tirou o maior dos bens, a glorificação de Cristo e nossa Redenção. No entanto, não por isso o mal se converteu em bem. Portanto, a permissão divina do mal é mistério que Deus esclarece por Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou para vencer aquele grande mal moral que é o pecado dos homens e que é a raiz dos outros males. Nosso Senhor trilhou o caminho da dor e da angústia, sofreu e se compadeceu dos sofredores, usando de seu poder para ajudar a muitos.

Oprimido ao pressentir a prova que chega, Jesus diz: “Pai, se é possível, afasta de mim o cálice do dor”. E continuou: “Mas faça-se a tua vontade, e não a minha”. E há o grito aparentemente desesperado de Jesus na cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?” São as palavras iniciais do Salmo 22 que, apesar do realismo de um sofrimento inexprimível, são esclarecidas pelo sentido dessa oração: o salmista, num misto impressionante de sentimentos, une lado a lado o sofrimento e, de outro, a confiança. O grito de Jesus na cruz não é a angústia de um desesperado, mas a oração do Filho que, por amor, oferece a sua vida ao Pai pela salvação de todos.

Às vezes, a fé em Deus como Pai amoroso pode ser posta à prova pela experiência do mal e do sofrimento, Deus pode parecer ausente ou incapaz de impedir o mal. Nosso Senhor pede um abandono na providência do Pai que cuida das necessidades de seus filhos: “olhai os lírios do campo, (...) aprendei dos pássaros do céu”. E disse: “Pedi e recebereis”. Recebemos sempre o melhor, nem sempre no tempo e do modo como pedimos, mas o melhor. A fé nos dá a certeza de que Deus não permitiria o mal se não fizesse sair o bem do próprio mal, por caminhos que só conheceremos plenamente na vida eterna.

“Deus faz cooperar todas as coisas para o bem dos que o amam”. Deus, em sua providência amorosa e poderosa, tira o bem das conseqüências do mal causado por suas criaturas. Exemplos: José no Egito: “Não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus... Ainda que vós pensastes fazer-me dano, Deus o penso para o bem, para fazer sobreviver um povo numeroso”; S. Tomás Morus, pouco antes de seu martírio, consola a filha: “Nada pode acontecer-me que Deus não queira. E tudo o que Ele quer, por muito mau que nos pareça, é em realidade o melhor”.

Deus é o Senhor da história. Mas os caminhos de sua providência nos são com freqüência desconhecidos. Só ao final, quando veremos Deus face a face, serão plenamente conhecidos: Deus sabe perfeitamente o bem que promove e o mal que permite. E quando permite o mal é para dele tirar bens maiores. Tomara que sempre possamos dizer, apesar de tudo, eu sei em quem eu coloquei a minha confiança. Por isso Santa Teresa ensinava a rezar: “Nada de perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não se muda (...) Só Deus basta”.

 

 

 

 

 

 

 



 
 


PARA CRIAR ESPÍRITO CRISTÃO NA FAMÍLIA - I

Para fomentar a vida de piedade nas crianças: 

1. Orientá-los desde pequenos ao amor à Sagrada Eucaristia e à Santíssima Virgem.
2. Cuidar que as devoções e atos de piedade tenham um conteúdo doutrinal teológico que vão entendendo pouco a pouco.

 

3. Os pais devem ensinar a rezar mas também devem explicar a quem se reza e porque se reza. Rezar com eles sempre que se possa.
4. Não abandonar o “seguimento” (perguntar, verificar, interessar-se em saber) das crianças nas orações diárias, como o oferecimento do dia e as orações antes de dormir.
5. Que a oração em família se faça com respeito. Cuidar as posturas. Não é o mesmo rezar que jogar ou ver televisão. A atitude deve ser outra.
6. Buscar a maneira (sem evitar algo de sacrifício dos pais e/ou dos filhos) de rezar o rosário em família. Os menores podem rezar alguns mistérios, de acordo com sua idade. Organizar o estudo, o descanso, as horas de chegada etc., para que se reze o rosário.
7. Ir com os filhos à Santa Missa sempre que se possa. Quando são pequenos ir explicando, pouco a pouco, os quatro “fins” da missa (adoração, súplica, reparação, ação de graças), para que acostumem-se a valorizá-la.
8. Cuidar especialmente a compostura na igreja. Fazê-los notar que o Senhor está real e verdadeiramente presente e merece ser respeitado através de atos externos e internos.
9. Cuidar das roupas das crianças. Não se deveria ir à igreja, e menos ainda à Santa Missa dominical, por exemplo, com roupa de esporte. Há que ensiná-los a distinguir uma coisa de outra.
10. Aos que vão comungar, preocupar-se de que guardem o jejum eucarístico (uma hora antes da comunhão) e que se confessem com boa freqüência.
11. Ensiná-los a dar graças depois da comunhão, descendo a detalhes concretos e orações simples.
12. Permanecer dando graças por um tempo depois da missa, explicando que o Senhor ainda está realmente presente naqueles que comungam.
13. Ensiná-los desde pequenos a associar a dor, a contrariedade, o esforço, o trabalho, com a reparação dos pecados e a participação na Cruz de Cristo. Há que ir dando razões “poderosas” que lhes sirvam de apoio nessas horas.
14. Ajudá-los a serem constantes na oração e demais práticas de piedade.
15. Quando chegam aos 11-13 anos, ajudá-los a superar os respeitos humanos, a vergonha de que sejam vistos rezando. Os pais deveriam saber que o ambiente muitas vezes favorece a que tenham esses respeitos humanos.
16. Explicar-lhes porque são escolhidos determinados lugares de veraneio, em lugar de outros com ambiente em que se ofende a Deus, de modo que também eles assumam esta decisão.

 

 
   
   
 


 

 

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Artigos do pe. Manoel publicados no site presbíteros.com.br sobre:

POLÍTICA E CRISTIANISMO
TEOLOGIA DO MILAGRE
MODELOS DE IGREJA – MODELOS DE PASTORAL
 

 
 

 
 


Atualizado em 02 de maio de 2008